Dentro de mim são tempos de romãs.
Mujer de Palabras
O blog da escritora Lélia Almeida
terça-feira, 15 de maio de 2012
quarta-feira, 9 de maio de 2012
A terra é má:
Lélia Almeida.
O Lars von Trier não está, confesso,
entre os meus diretores de cinema favoritos. Gosto muito de algumas coisas dele
e detesto outras. Assim é. Resisti muito a ver Melancholia, de 2011 e devo dizer que gostei muito do filme. Não
vou analisa-lo aqui, mas gosto, por exemplo, quando a irmã oficialmente
deprimida, Justine (Kirsten Dunst), diz pra irmã oficialmente normal e pragmática,
Claire (Charlotte Gainsbourg), que a terra é má. Para quem não viu o filme a
Terra vai ser destruída pelo choque com um planeta chamado Melancholia e o filme se passa nos momentos antes deste choque.
O filme, dividido em duas partes que tem
o nome de cada irmã vai mostrando a troca de papéis das duas e parece indicar
que os deprimidos saberão enfrentar de maneira mais realista o fim do mundo, já
que a depressão, ou a melancolia seriam, ao fim e ao cabo, um verdadeiro território
de devastação e desamparo. Claire, a irmã bem sucedida está inconformada com o
fim do mundo, com o fim do seu confortável mundo, na verdade, e demanda
insistentemente do marido o cumprimento da promessa de que o mundo não vai
acabar. Justine, que sobreviveu aos caminhos inóspitos e selvagens da depressão
sabe o que a irmã não quer aceitar: a terra é má, ela diz. No mesmo tom que a
mãe fala à filha-noiva na festa de casamento, acorde, saia daqui e vá viver a
sua vida, ela diz, referindo-se aos casamentos sem vínculos reais, projetos
falidos antes mesmo de sua consumação.
Lembro desta frase da personagem da
Kirsten Dunst cada vez que leio sobre a balela da terra boa associada ao corpo
da mulher, que também é bom, que também é mau e estou exausta de tanto
retrocesso. Tô cansada da mãe-terra, da Pachamama impecável, da terra boa e me
filio cada vez mais à premissa do polêmico dinamarquês pra dizer que sim, que a
terra é má. É temperamental, cheia de humores, desacomodada e que a natureza é
selvagem sim, indomável, assim, como, nós mesmos, cheios de apetites,
voracidades, estamos longe de sermos bons. Como a terra, também somos maus.
Em algum momento da história do
movimento das mulheres foi absolutamente necessário que as mulheres aprendessem
sobre os seus corpos, aprisionados por espartilhos mentais e físicos, proibidos
de prazeres e orgasmos e em nome disto loucuras foram e continuam a ser feitas
pelas mulheres do mundo todo. Participei de grupos de conscientização nos anos
70 e 80 e de toda sorte de promessa que compunha o elenco do liberou geral e quero dizer que a farra
foi grande e não foi menor a angústia de vivermos muitas vezes experiências e
situações para as quais estávamos completamente despreparadas. Não há
preparação quando se fala de sexualidade, já que este é o lugar do susto, do
sobressalto e do que não sabemos sobre nós mesmos no encontro com o outro.
Uma amiga minha foi iniciada por um
ginecologista que era médico do exército e que media a duração os orgasmos dela
com uma planilha na mão. Consta que ela não pode ver um jaleco branco até a
presente data. Muitos filmes nos mostraram, já de forma caricatural, os grupos
de mulheres que olhavam amorosamente suas partes com espelhinhos em posições
pouco cômodas e conversavam com elas para estabelecer uma intimidade de
comadres, perdidas na ilusão de num matriarcado que nunca existiu, enfim não
gosto nem de lembrar das coisas pelas quais já passamos e pelas quais pagamos
para a tal da liberação feminina. Falo dos grupos de conscientização de mais de
30 anos. E eis que tudo volta com uma força absoluta e me sinto perdida e
tentando compreender.
Tenho dificuldade com as premissas
feministas contemporâneas das jovens mulheres que querem voltar pra casa, ser
sustentadas pelos maridos e ficar cuidando dos filhos, tenho dificuldades para
entender que as mulheres não queiram mais namorar e trepar. Tô cansada das
festinhas e rodinhas de mulheres que fazem um verdadeiro campeonato de quem tem
o melhor marido ou o filho mais eficiente, sinto que estou nas festas de
aniversário das minhas tias lá no interior quando eu era uma menina e fico
desolada pensando que nada mudou e isto é desesperador. Porque muitas mulheres
sofreram muito para simplesmente adquirir o direito de poder votar, dirigir um
carro, fazer uma faculdade, escolher suas parcerias e tudo isto é jogado na
lata do lixo e voltamos ao princípio num movimento de um passo pra frente,
trocentos pra trás.
A ditadura pelo parto natural e pela
obrigatoriedade do aleitamento tão me cansando a beleza também. Foram anos de
luta para que as mulheres pudessem escolher viver como bem quisessem, saímos de
uma cartilha de repressão e rezamos pela cartilha do politicamente correto que
é careta, sem graça, pouco criativa, chata e burra.
Eu gosto da Rose Marie Muraro, da Elke Maravilha,
das mulheres anarquistas e de espírito rebelde. E gosto das mulheres comuns que
entendem ali, na veia, que a sexualidade vai além da discussão sobre a
vitimização e da violência ou do número de orgasmos que atingimos, que a
sexualidade e o prazer do corpo têm unicamente a ver com um jeito de andar pelo
mundo e que este jeito tem de ser leve, original, lúdico e pessoal, sem
receitas e regras. E que passamos da superexposição para a inibição num
movimento pendular viciado que nos impede a espontaneidade das nossas escolhas
mais simples, sofro com isto, eu que gosto de cada coisa mais esquisita, mais
bizarra, mais sem graça, por vezes, pelo simples prazer de gostar.
Outro dia fui expulsa de um grupo de
danças circulares onde uma cidadã levou uma coisa chamada moon cup que vem a ser uma espécie de coador de café daqueles antigos
com um gel onde é depositado o sangue menstrual que para muitas é considerado
sagrado. O sangue depositado naquela coisa solidificou e a criatura o aspergiu
sobre nós, filhas diletas da Pachamama para que fôssemos abençoadas pelo sangue
bendito. Tive uma crise histérica de riso incontrolável e fui convidada a me
retirar do círculo como uma filha traidora. Tudo ali, sob o plenilúnio e junto
com muitas mulheres vestidas de bruxas invocando os poderes da Hécate. Ai que
exaustão.
A terra é má. O corpo feminino, sobre o
qual historicamente é projetada a loucura do mundo pede descanso, por favor.
Nesta semana teremos o famigerado dia das mães. As mães são boas, assim reza a
lenda. E esquecemo-nos das mães que não cuidam dos seus filhos, que sequer os
amam, das que os abandonam, das mulheres que não quiseram parir, das que
detestaram amamentar, e repetimos que a paz é feminina. Não, não é. Se assim
fosse as mulheres não mandavam seus filhos para a guerra e nem apoiariam a
volta do Pinochet ao Chile como fizeram muitas mulheres chilenas só para citar
um dos exemplos mais dramáticos do âmbito da política. As mulheres são boas e
são más, a maternidade é por demais complexa para simplificações, ser mãe e ser
filha não é pra amadoras, e não vamos ganhar o céu das moças bem comportadas se
seguirmos o ideário em voga sem pensar sobre quem somos.
Feminismo tem a ver com autonomia,
solidariedade e coisas há muito esquecidas, e, principalmente, com espirito
crítico e autonomia de pensamento. Gosto das cenas dos cavalos do filme do von
Trier, que lembram de uma potência esquecida, imprescindível, das cenas das
irmãs cavalgando, indo a lugar nenhum, em busca de uma vitalidade, de um último
suspiro no momento em que o mundo pode acabar, porque um mundo sem desejo é um
mundo que vai, inevitavelmente, sucumbir.
A terra é má. E a terra é boa. Como no
filme Melancholia, um lugar por
demais belo com suas paisagens noturnas, perigosas, de uma natureza poderosa,
mas que vai acabar, como os nossos pobres corpos, feitos para a alegria e para
as dores. E a tal da mãe terra sabe ser cruel e devastadora independente de
ligarmos ou não o ar-condicionado, a natureza é o que é, impiedosa, milagrosa,
precária e exuberante.
Trata-se sempre do mesmo, penso eu aqui,
meio cansada quando leio algumas grandes bobagens escritas pelas mulheres, de
acabar com este maniqueísmo fácil e preguiçoso, de dizer que os homens são
violentos e as mulheres vítimas, esquecendo-nos das grandes manipuladoras,
doidas, assassinas e dos homens do bem. Tô ficando velha, a bem da verdade, e
não me satisfazem mais as respostas fáceis e nem as perguntas óbvias. Tenho
tido dificuldades imensas em conciliar as minhas esquisitices, pra aceitar sem
questionar determinadas insanidades que ouço num movimento de repetição
mecânica.
A terra é má, a Pachamama não é
protetora como desejamos, os nossos corpos, que vieram dos corpos das nossas
mães e que pariram os nossos filhos, ora acolhedores, ora não, vão fenecer um
dia. E a terra onde pisamos todos os dias, representada nos belos cenários do Melancholia, ainda é um lugar
absolutamente instigante para a travessia possível.
Brasília,
09/05/2012.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Amora:
Lélia Almeida.
Não subestimem
uma mulher que está na menopausa. Ela está atravessando um portal. Uma louca e
uma sacerdotisa pelejam dentro dela, ambas serão incorporadas. A mulher na
menopausa devora o coração das duas com os dentes gastos e a fúria de uma
sobrevivente faminta. Falta-lhe, a cada dia, a visão, a cada estação ela
aumenta o grau das lentes que enxergam o mundo de fora. Medida providencial
para quem tem de ajustar a visão de dentro. Olhar pra fora distrai, ela vê
agora, o essencial. As rugas se acumulam ao redor dos olhos, há uma estranha
suavidade no semblante e olhos incandescentes. Nascem pelos no queixo e podemos
vê-la, ocasionalmente, roçando os pelos, olhar perdido, despudorada. Um gesto
comum este entre as valquírias que se preparam para o grande embate. Porque esta
é a última oportunidade de deixar as ilusões pelo caminho. Os pelos
caem ondem deveriam permanecer, nascem em lugares insólitos. Tudo se traduz
numa grande inconveniência. Ela está se transformando num animal definitivo. Os
olhos congestionados ao redor da pele empapuçada veem o que ninguém mais vê. O
corpo exibe as marcas do tempo, não é mais belo, não é mais jovem e esta é uma
grande libertação. A cabeleira perde a força, os fios de prata são ásperos. Não há reposição hormonal que dê conta da convulsão da
sua alma. Ela está se transformando num bicho, num animal cujo nome desconhece.
Deixa pelo caminho o manual das boas maneiras, fica de péssimo humor, se irrita
com os filhos, com os homens, com as amigas. Ela está furiosa, ela chora, a
alma em alvoroço. Todas as noites ela chora, não sabe para onde ir, nem quando,
nem como. Ela duvida de tudo e se vê num grande deserto que tem
de atravessar sozinha agora. Ela chora em momentos improváveis, ri
desavisadamente, não tem mais paciência com bobagens e sua capacidade de
alegria se expande. Os outros a veem frágil, vacilante, mas ela tem agora uma
força e uma perseverança jamais experimentadas. O fogo a toma por segundos, ela
está em combustão, depois drena os excessos de água. Ela está conectada com
a fonte e com o fogo. Fica exausta, dorme mal, acorda cedo. Há dias que comeria
um animal sacrificado no meio da savana e outros de parco jejum. O mesmo
acontece com o sexo. Um sexo agora sem culpa e nem performance, um sexo sem
pressa, fome da carne, fome urgente, fome boa. Ela toma chá de amora. Seu sangue é como a tintura
da amora, de uma cor diferente e que lhe confere outras propriedades
para que ela possa, enfim, criar a si mesma. A mulher caminha concentrada,
lembra de si quando era uma menina, uma adolescente, caminha cada vez mais em
direção à casa materna, ela sabe agora o que só as mulheres velhas conhecem.
Ela não perde tempo, ela avança. Deixa pelo caminho tudo o que não serve mais.
É uma marcha constante, infernal, movida pela força do fogo e da água. Deixem-na
ir, ela não pode parar, atravessa as noites insone, atravessa o medo, pensa
obsessivamente na morte, transborda de vida e não perde tempo. Prossegue. Não subestimem uma mulher
que está na menopausa. Ela é uma tartaruga velha, uma gazela, uma
mulher-macaca. Ela caminha cada vez mais rápida, desgrenhada e incandescente.
Ela vai atravessar o portal. Ela vai encontrar, definitivamente, consigo mesma.
Brasília, 14 de março de 2012.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Perguntas a Talyta Carvalho que afirma
não dever nada ao feminismo:
Lélia Almeida.
Marcelo Mirisola publicou hoje, dia 8 de
março, no Facebook, a matéria de Talyta Carvalho, uma filósofa de 25 anos onde
ela diz que não deve nada ao feminismo e às feministas. A frase não é original,
quem a disse assim, tal e qual foi Margaret Thatcher quando chegou ao poder.
Não sei se a moça sabe o que a Dama de Ferro significou na história da
Inglaterra e no aniquilamento das políticas de direitos humanos, trabalhistas e
outros daquele país. O GNT está passando esta semana um documentário canadense
que se chama "Quem Quer Ser Feminista?" falando sobre os diferentes
momentos da história da luta das mulheres e entrevistando algumas feministas
famosas. Naomy Wolf diz que o grande problema do feminismo hoje é para quem
passar o bastão da luta já que as mulheres jovens não se interessam pelo
ideário feminista numa falsa ilusão de que tudo já foi conquistado. Germaine
Greer diz que a tendência de uma nova onda feminista sempre tende a negar a
anterior e que, portanto, é compreensível que as jovens mulheres neguem o
feminismo. O que é legítimo, elas que inventem o feminismo que bem entenderem
ou que nunca mais falem neste assunto.
Marcelo Mirisola diz que a moça é
corajosa, pergunta ás leitoras do face o que achamos de fazer uma entrevista
com a jovem e publicá-la no Congresso em Foco, veículo onde ele é colunista e propõe
que enviemos perguntas para a entrevista. Sugiro que ele entreviste a moça, e
que possibilite que ela vire uma celebridade e, quem sabe, a candidata a
calendário de oficina mecânica, como sói acontecer.
Mas vou fazer o meu dever de casa.
Seguem as minhas sugestões de perguntas: Você já fez um aborto? Você já se
sentiu constrangida, desconfortável, impotente junto a um parceiro que se negou
terminantemente a usar camisinha com você? Você sabia que houve um momento na
história do mundo em que as mulheres tiveram de se rebelar contra normas e
padrões muito rígidos para poder estudar, dirigir um carro, não querer casar e
ter filhos e fazer qualquer coisa que achassem mais interessantes? Você se
sente inteiramente feliz e confortável com o seu corpo, sua sexualidade e
isenta do bombardeio midiático que preconiza a beleza feminina jovem e bela e
que trata as mulheres como retardadas e infantis? Você sabia que milhares de
mulheres no mundo inteiro morrem na mesa de abortos mal feitos, de mutilação
genital e nas mãos de homens que dizem matar por amor ou para defender a
própria honra? Você acha que as mulheres devem votar e defender suas demandas,
interesses, e os das suas filhas? O que você acha dos índices relativos á saúde
mental que provam que as mulheres são supermedicadas por depressão e outras
moléstias modernas por viverem situações de sobrecarga cada dia mais
insuportáveis para grande parte delas? Você acha que os maridos devem sustentar
suas mulheres? Você acha que as mulheres devem ficar em casa cuidando dos
filhos? Você acha que em briga de marido e mulher não se mete a colher e que as
mulheres que são estupradas, no fundo, provocaram esta situação?
Vou ficar por aqui. Acho que o Mirisola
deveria entrevistar outras mulheres também. Particularmente gostaria de saber a
resposta da moça para algumas destas perguntas. Porque o feminismo,
historicamente, para mim, já tem respondido a todas elas.
http://sergyovitro.blogspot.com/2012/03/talyta-carvalho-nao-devemos-nada-ao.html
terça-feira, 6 de março de 2012
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Eu, aos cinquenta:
por Lélia Almeida.
Dia 20 de fevereiro
faço 50 anos. Meu aniversário coincide com uma mudança de casa, vou para um
apartamento menor, eu, três gatos e muitos livros. Hoje comecei a empacotar os
livros e fui tomada por um turbilhão de estados emocionais e alterações de
humor que só quem passa por isso sabe do que se trata. Porque na hora de
encaixotar os livros, muitos, inevitavelmente, vão ficar pelo caminho.
Já fiz mais de 20
mudanças para lugares, cidades, endereços e países diferentes e já deixei
muitos livros pra trás. E como choro na hora da escolha do que levar e do que
deixar. Uma escolha é também uma renúncia. Uma escolha reafirma quem ainda
somos e os livros que não vão conosco parecem gestar um cadáver daquilo que não
somos mais e que vai embora agora, um pedaço de nós, embalado numa mortalha
feita de caixas de supermercado, jazer na Biblioteca Demonstrativa de Brasília.
Chorei de ranho ao pé
da Antologia General de la Literatura
Española (verso, prosa, teatro), de Angel Del Rio de Columbia University y
Amelia Del Rio de Barnard College, da Revista de Occidente de Madrid, de 1954,
três portentosos volumes em couro legítimo que somam juntos mais de 3.000
páginas. E da Historia General de las
Literaturas Hispánicas de Guillermo Díaz-Plaja da Editorial Barna, de
Barcelona comprada na maravilhosa livraria García Santos libros em Mendoza na
Argentina, dois volumes de mais de mil páginas cada um, capa de couro clarinho.
E dos quatro volumes da Historia Comparada de las literaturas americanas de Lui
Alberto Sánchez, editado pela Losada e comprada na Librería Y... do Jorge, em Mendoza.
A Líbrería Y... era do Jorge, o último riponga autêntico da cidade e
ficava no centro de Mendoza, na Argentina. Era, na verdade, um galpão imenso,
cheio de livros maravilhosos, pé direito altíssimo e muitos gatos que ele
criava ali, misturado com os livros. Apaixonado por Cortázar, Jorge teve várias
livrarias na cidade e cada uma tinha uma parte do nome do livro Historias de cronopios y de famas. Todas
faliram, só tinha sobrado a Y... onde
permanecia o acervo fabuloso de todas as outras. Nas tardes de domingo eu e o
meu filho, que tinha sete anos então, passávamos a tarde garimpando livros,
brincando com os gatos e tomando mate com o Jorge e a Marta que nos
apresentavam editoras e autores imprescindíveis. Nosso primeiro gato veio dali,
o Preto, o nosso gato mendocino. Trouxe verdadeiras relíquias daquele lugar que
não existe mais. Voltamos a Mendoza dez anos depois para visitar os amigos e o
lugar vendia geladeiras, fogões e eletrodomésticos.
Tudo isto lembro agora
secando as lágrimas com os dedos cheios de pó, espirrando na hora da escolha.
Não consegui me desfazer das feministas clássicas, que domaram o meu espírito
rebelde, prossigo então com a Alexandra Kollontai, Rosa Luxemburgo, Simone de Beauvoir
e outras que não interessam a mais ninguém, e as brasileiras, Carmen da Silva,
Heliete
Saffioti, Heloneida Studart, Danda Prado, e outras tão caras a minha geração. Minha vida de menina, da Helena Morley também
vai. Tudo o que veio da fronteira comigo, permanece, os latino-americanos da
Editora Losada comprados na Casa América, Lorca e Miguel Hernández que me
iluminam sempre.
Olho para os que
permanecem e vejo que alguma coisa em mim não muda e se perpetua a cada vez que
os mesmos livros são embalados outra vez. Não só as feministas clássicas, as contemporâneas,
que me ensinaram a pensar e a olhar o mundo sob outro ponto de vista, o das
mulheres. Não posso prosseguir sem elas, as espanholas, as italianas, as
mexicanas, as francesas, as americanas, as inglesas, Marcela Lagarde, Michelle
Perrot, Elaine Showalter, Luisa Pousada, Helene Cisoux, Adrienne Rich Sandra
Gubar, e tantas outras. Ironicamente encontro Medo aos cinquenta da irreverente e maravilhosa Erica Jong que
antes me salvou das minhas ilusões aos 20 anos com Medo de voar. Não, não vou sem elas a lugar algum. E nem sem a
Lísia Pessin e a Virginia Wolf, Adélia Prado, Alfonsina Storni, Rosario Castellanos,
Clarice Lispector, Lila Ripoll ou a Cecilia Meireles.
Se um cavalheiro me
pedisse, gentilmente em casamento hoje, e fossemos tratar do dote eu não teria
como enganá-lo e lhe mostraria os meus tesouros: a obra completa da karen
Blixen, a obra completa da Peri-Rossi, a obra completa da Carmen Martín Gaite,
os diários da Anaïs Nin que sempre modulam com delicadeza a minha alma
assombrada. Cassandra Rios, Adelaide Carraro, Alicia Steimberg e Elfriede
Jelinek.
É o que temos, senhor,
eu diria, a obra completa destas damas, três gatos. E era isto. Ele desistiria,
estou certa, diante de um dote tão miserável, e ficaríamos amigos, quem sabe.
Deixei as gramáticas de
língua espanhola para trás, as de língua portuguesa também, e muitos
dicionários, há muito que não sou mais professora de línguas e literaturas e
esta parte foi triste, confesso.
Outros temas se
incorporaram nos últimos anos, temas sobre direitos humanos e mulheres,
mulheres que lutam pela paz no mundo, sobre conflitos e sobre feminismo
pacifista. Os livros da infância e da adolescência do meu filho também vão
ficar, e os de um doutorado em literatura comparada nunca concluído também não
me acompanham mais.
Mas nem morta eu me
desfaço do Sergio Faraco, do Simões Lopes Neto, do Erico Verissimo, do Julián Murguía,
do Acevedo Díaz, do Mario Arregui, do Felisberto Hernández, Borges, da Juana de
Ibarbourou, da Delmira Agustini que desenharam a alma da paisagem da fronteira
que é o meu lugar no mundo.
Chorei toda a tarde
embalando os livros, as latino-americanas que eu amo, minhas mestras, Elena Poniatowska,
Griselda Gambaro, Diamela Eltit, Alejandra Pizarnik. Os
das cartas de amor, os gregos, as cartas de amigos, os mitos, os livros dos
arcanos e os tarôs, os dos planetas, os de receitas, os atlas, a Dona Benta ainda
vai comigo, mas desta vez consegui liberar o Dr. De Lamare.
Cinquenta anos e não
sou uma mulher só. Aos cinquenta anos sou uma mulher simples, que vai morar num
loft pequeno cheio de livros e três
gatos. Levo, La enciclopedia de las cosas que nunca
existieron do Michael Page y Robert e do Ingpen Lee, que amo tanto.
Aos cinquenta anos sou,
pois, uma mulher de palavras, das que leio e das que escrevo. E continuo
perseguindo as palavras com a mesma obsessão e curiosidade de quando era uma
menina e perguntava o significado delas à minha mãe. E ela sempre sabia
responder. Treliça. Salamandra. Aleluia. Monjolo. Cometa. Benjoim. Minuano.
Castiçal. Manjedoura. Entranhas.
Aos cinquenta anos
acordo no meio da noite em ânsias, tomada de uma angústia inexplicável, suando,
acendo a luz e abro um livro ao acaso, os Cuentos
de amor, de locura y de muerte do Horacio Quiroga com a dedicatória: Jamás te olvidaré, te amaré siempre, em beso,
Germán, Rivera, 1975. Não sei quem é, mas não estou mais só e então volto a
respirar com calma, amparada agora pelo Quiroga e louca de saudades deste
Germán que, graças aos céus, em algum lugar do mundo, ainda me ama.
Aos cinquenta anos sou
exatamente o que sonhei ser quando era uma menina: uma mulher de palavras.
Seco as lágrimas, tomo
um banho, prendo o cabelo molhado, a cara limpa, sem maquiagem e antes de
dormir olho a pilha dos livros que ficam e dos que vão embora. Mudei muito pouco
em tanto tempo. E passou muito rápido.
Na pilha dos livros que
ficam o que sempre me inspirou: as mulheres, as mulheres escritoras, as
furiosas, as loucas e as irreverentes, algumas delicadas, as romancistas, as
que brigam contra as injustiças, as poetas, as senhoras das palavras.
E na mesma pilha o
esboço daquilo que tenho sido, lapidado: uma leitora, uma aprendiz de escritora,
uma senhora cheia de rugas, del sur,
do Prata, perdida no mundo, andarilha, com algumas convicções por demais
arraigadas, forjadas a fogo lento, uma senhora de cabelos brancos e com o
coração ancorado no pampa.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
domingo, 15 de janeiro de 2012
O que vou fazer com as minhas amadas amigas de 50 anos que insistem em querer voltar a los 17, com plásticas absurdas e agressivas, que as desfiguram completamente... Outro dia uma delas, no meio de uma conversa, levantou a minha pálpebra para fazer um experimento... Tentei explicar a ela que prefiro investir esta fortuna (no meu caso, para volver a los 17, seriam necessárias vááááárias plásticas!...!!!) numa viagem maravilhosa, vislumbrei o olhar de medusa, daqueles que nos fulminam com as flechas da balela autoajudativa e gritam: auto-estima baixa! Difícil explicar para algumas mulheres do prazer e do alívio de renunciar à perversidade da eterna juventude. Quero ficar bem velha, bem sábia, longe das armadilhas que nos prometem o impossível. A vida que me cabe ainda é a minha melhor medida.
Posso dizer que, pessoalmente, não compartilho da balela autoajudativa sobre auto-estima e a obrigação de ser feliz. Constelações imensas movem-se dentro de nós, onde verdades inescapáveis habitam e pedem para se expressar, nem todas belas, nem sempre alegres. Prefiro pensar que a jornada é mais desafiadora e misteriosa quando sinto que não estou aqui para ser feliz, mas para conhecer, para compreender. Fico mais leve quando me concilio com a minha humanidade.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Este livro pode ser encontrado no seguinte endereço:
http://clubedeautores.com.br/book/120038--As_meninas_mas_na_literatura_de_autoria_feminina
http://clubedeautores.com.br/book/120038--As_meninas_mas_na_literatura_de_autoria_feminina
Este livro pode ser encontrado no endereço abaixo:
http://clubedeautores.com.br/book/119576--Mujer_de_Palabras
http://clubedeautores.com.br/book/119576--Mujer_de_Palabras
Este livro pode ser encontrado no seguinte endereço:
http://clubedeautores.com.br/book/120012--As_Gregas_do_Mangue
http://clubedeautores.com.br/book/120012--As_Gregas_do_Mangue
Este livro pode ser encontrado no seguinte endereço:
http://clubedeautores.com.br/book/119573--Posts_da_Lelia
http://clubedeautores.com.br/book/119573--Posts_da_Lelia
Assinar:
Postagens (Atom)






